terça-feira, 7 de agosto de 2012

O Sotaque Das Mineiras

O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo ficou de fora? Porque, Deus, que sotaque!

Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso? Assino achando que ela me faz um favor.

Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque. Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: "pó parar").

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs. Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco importa que seja um juiz de direito, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro - metaforicamente falando, claro - ele é bom de serviço.

Faz sentido...

Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: "cê tá boa?". Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.

Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: “Mexe com isso não, sô” (leia-se: sai dessa, é fria, etc). O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.

Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta. “Sôcê” (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz: “Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô.” Esse "aqui" é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase.  É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, "olá, me escutem, por favor". É a última instância antes de jogar um pão de queijo
na cabeça do interlocutor.

Mineiras não dizem "apaixonado por". Dizem, sabe-se lá por que, "pêxonado com". Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: "Ah, eu pêxonei com ele...". Ou: "sou doida com ele" (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro). Elas vivem apaixonadas "com" alguma coisa.

Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de "bonitim",  "fechadim", e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo: "E aí, vamos?". Não caia na besteira de esperar um "vamos" completo de uma mineira. Não ouvirá nunca. Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira.  Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas.

No supermercado, não faz muitas compras, ele compra "um tanto de côsa". O supermercado não estará lotado, ele terá "um tanto de gente". Se a fila do caixa não anda, é porque está "agarrando" (aliás, "garrando") lá na frente. Entendeu? Agarrar é agarrar, ora!

Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará: “Ai, gente, que dó.” É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras. Não vem caçar confusão pro meu lado. Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro "caça confusão". Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele "vive caçando confusão".

Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é muitíssimo bom vai dizer: "Ô, é sem noção". Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora, idéia do "tanto debom" que é. Só não esqueça, por favor, o "Ô" no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?

Capaz... Se você propõe algo e ela diz: capaz!!! Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer: "ce acha que eu faço isso?", com algumas toneladas de ironia... Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: "Ô dó dôcê". Entendeu? Não? Deixa para lá.

É parecido com o "nem...". Já ouviu o "nem..."? Completo ele fica:- “Ah, nem...”. O que significa? Significa amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: "Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?". Resposta: "Nem...". Ainda não entendeu? Uai, nem é nem.

Leitor, você é meio burrinho ou é impressão? A propósito, um mineiro não pergunta: "você não vai?". A pergunta, mineiramente falando, seria: "cê não anima de ir"? Tão simples. O resto do Brasil complica tudo. É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem...

Falando em "ei...". As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o "ei" no lugar do "oi". Você liga, e elas atendem lindamente: "eiiii!!!", com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade... Tem tantos outros...

O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras. Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar: Ah, fui lá comprar umas coisas. “Ques côsa?”- ela retrucará. O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que. 

Ouvi de uma menina culta um "pelas metade", no lugar de "pela metade". E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará: “Ele pôs a culpa "ni mim".”

A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios em Minas... Ontem, uma senhora docemente me consolou: "prôcupa não, bobo!". E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: "não se preocupe", ou algo assim.

A fórmula mineira é sintética. E diz tudo. Até o "tchau" em Minas é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente. Aqui se diz: "tchau procê", "tchau procês". É útil deixar claro o destinatário do tchau. Então...


¹ Carlos Drummond de Andrade









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[1] Em tempo, de acordo com pesquisa feita pelo escritor, tradutor, linguista e professor, Marcos Bagno, o texto acima atribuído a Drummond é apócrifo, não foi de fato escrito pelo grande poeta mineiro. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Aquela

Eu sou aquela que saiu de casa e mudou de cidade aos 21 anos pra dar seus passos sozinha. E hoje aos 24, mesmo ainda achando tudo muito complicado entende que a independência é a melhor coisa da vida.
Aquela que gosta de filmes, músicas, teatro, livros, fotografias, desenhos e cinema, eterna apaixonada pela arte e que vê encanto em tudo que existe.
Aquela que gosta de jeans, camiseta e all star, que usa chapinha, mas que foi obrigada a gostar dos cabelos ao natural, que parou de roer as unhas e se sente orgulhosa por isso.
Aquela que é intensa em tudo que faz, que vive as vezes por viver e outras tantas vezes pra viver, que ama os amigos que tem.
Aquela que nem sempre diz o que pensa e que pensa demais, que chora com filmes e livros, e que não viveria sem esse sentimentalismo bobo e barato.
Eu sou aquela que é viciada em chiclete de menta, chocolate, doce de banana, e coca-cola. Que prefere um abraço carinhoso a um beijo mal dado.
Aquela que muitas vezes se sente perdida, mas sempre acaba se encontrando, que não se acha linda e fica desconcertada com elogios.
Aquela que não tem uma banda preferida e que aprecia músicas de qualidade, que gosta de assistir TV, mas sempre acha que não passa nada de interessante na televisão.
Eu sou aquela que tem sonhos, alguns foram guardados na gaveta, mas nunca esquecidos, e outros são o motivo da sua existência.
Aquela meio confusa pra quem vê, mas simples pra quem conhece. Que não fala com qualquer um sobre a vida pessoal, mas que não sabe o que faria sem os bons amigos pra desabafar.
Aquela estressadinha que se acha invocadinha, que fica um capeta na TPM, e que tem um gênio muito complexo e de difícil convivência.
Aquela lerda que entende as coisas depois de alguns minutos e sempre se mata de rir sozinha quando percebe que a piada era de fato muito boa.
Eu sou aquela que tem preguiça de acordar cedo pra ir trabalhar, e que adora os Domingos e feriados nas Segundas-Feiras.
Aquela fulana, amada por muitos e odiada por tantos outros, que já se importou com o que os outros pensam, mas que hoje convive bem com isso.
Aquela menina mulher, que não aparenta ter a idade que tem, que gosta de coisas fofas, bichinhos gordinhos e que sonha em se casar.

Sou mãe, sou filha, amiga, namorada e pensante.
Sou boa, ruim, educada, estressada.
Sou forte, sou fraca, vulnerável ou uma fortaleza.
Sou menina, sou mulher.
Sou fogo, sou brasa, água, gelo e fumaça.
Afável, ácida, agridoce.
Alice, Dorothy, Tereza, Joana, Clarice, Florbela, Tarsila, Fernanda, Marilyn, Audrey, Frida, Coco... Amelie.
Sou a menina que roubava livros. A garota do pijama listrado. Sou uma fortaleza digital, um ponto de impacto. O símbolo perdido.

Sou a doçura do pequeno príncipe e a força da Anne Frank.

Ex fumante, sagitariana, apaixonada e feliz.

Sou aquela que sabe o quanto ser gente grande da trabalho. Mas que apesar de toda a trabalheira, tem suas recompensas. Afinal de contas, tem coisas que o dinheiro realmente não compra, mas pra todas as outras, sempre vai existir o tal do MasterCard.

domingo, 3 de abril de 2011

Intensidade De Sentimentos

Uma vez escrevi sobre o grande problema de ser intensa demais. Aleguei que assim o sofrimento torna-se demasiadamente grande. Hoje mais velha ainda penso que este é o grande problema da intensidade de sentimentos, porem, não é o unico.
As vezes não se consegue pensar. Os atos começam a ter vida própria e você não tem vontade de nada. Ver as pessoas é luxo. Mas ao mesmo tempo você quer gritar pra ver se assim sai algo preso da garganta. Você tem medo. Você sente um vazio preenchido por dor.
Suas noites ficam cada vez mais longas e o sono torna-se seu inimigo. Parece que nunca mais vai aparecer. Enquanto você sente suas forças diminuirem a cada momento, percebe que nem chorar você consegue mais.
A mente cheia de perguntas e pórens parece vazia. E é nesse momento que você busca refugio. Eu simplesmente escrevo. Escrevo cartas que nunca vou mandar e histórias que ninguém vai ler. Escrevo pra mim. Por mim. O sofrimento demasiadamente grande, simplesmente me leva a escrever.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Há solidão. Há tristeza. Há saudade. Há beleza.

Porque às vezes a gente acorda achando o mundo meio indiferente, às vezes sentimos que tudo e todos simplesmente te viraram as costas. Fica tudo escuro e você mal tem vontade de levantar da cama.
Quando isso acontece te deixa completamente sem esperanças na vida, e você passa a desacreditar em tudo, esquece seus sonhos, afinal as coisas nunca dão certo pra você, pra que acreditar, não é mesmo?
Se olhar no espelho é luxo, você não quer simplesmente ter que fitar seus olhos desacreditados, e ver sua imagem patética, por isso não penteia os cabelos, não escova os dentes e fica jogada a Deus dará.
Creio que hoje é um desses dias pra mim. E enquanto vejo o mundo monocromático, só tenho vontade de dormir, pra ver se nos meus sonhos tudo fica bem no final.

sábado, 29 de maio de 2010

É como um filme dramático e perturbador. Como uma das novelas tão peculiares do ‘Maneco’, ou uma tragédia Shakespereana. É como um suéter de lã vindo diretamente dos Alpes suíços no calor carioca. É como uma música melancólica e inadequada, ou um livro inquietante de cabeceira. É como entender que o 'tudo fica bem no final', é bastante relativo.